Resguardo (vol. 1)

O dicionário diz:

RESGUARDO: Substantivo masculino.

  1. Ação ou efeito de resguardar (-se).

  2. Tudo que tem por fim livrar alguém ou alguma coisa de perigos ou danos; cautela, precaução.

  3. Regime de alimentação, dieta, repouso.

  4. Qualidade de escrupuloso; reserva, cuidado, prudência.

  5. Sentimento de decoro, pudor.

  6. Aquilo que abriga o corpo do frio, do vento; agasalho.

  7. Período após o parto em que a mulher toma certos cuidados, faz repousos.

  8. Segredo, precaução, mistério.

  9. Lugar de abrigo.

  10. Enc conjunto das guardas de um livro.

  11. Etn m.q Recolhimento.

Etimologicamente a palavra resguardo origina-se re+esguardar. Esguardar significa olhar com atenção, considerar atentamente. Re+esguardar, esguardar novamente.

Logo só é possível resguardar a si mesmo, ou algo que seja seu. A quem acompanha o resguardo de alguém, cabe a guarda, o guardar o outro.

Na vida de uma mulher o resguardo é o período onde vivemos uma montanha russa de hormônios. Para falar sobre resguardo é necessário falar sobre a gravidez e o parto. É na gravidez que esse primeiro olhar com atenção deve acontecer, para ser revisto no parto e no resguardo.

Durante o parto acessamos percepções e sensações que nos conduzem a um transe, êxtase, que depende diretamente da harmonia do ambiente como um alicerce para que isso aconteça da melhor forma. É um lugar muito delicado, de conexão com nossos avessos velados, com a nossa mais bela e surpreendente verdade. De fato, de uma delicadeza infinita.

Tudo a nossa volta, cada objeto, pessoa, cheiro, pensamento, som, tudo é percebido por nós como símbolos que nos penetram e se acomodam dentro de nós. Símbolos com significados diretos e marcantes, que são introjetados pela visão da mulher gestante. Memórias impressas em nossas camadas de existência, algumas mais próximas da superfície, outras tão profundas que a mente não acesa em vigília. Independente da camada elas estão ali, tatuadas.

Não era por superstição que durante um parto as parteiras da região da Anatólia, na Turquia, tinham o costume de abrir todas as portas e janelas das casas durante os partos. Uma porta fechada pode ser uma mensagem direta de oposição, para quem está em movimento de abertura. Símbolos são mensagens que não precisam de palavras para nos imprimir significados, e influenciar em nossos pensamentos e ações. Um pessoa querida que se ausenta, ou que se apresenta de forma invasiva, um sorriso, ou um olhar de reprovação, tudo se torna símbolo nesta hora, símbolos que serão para sempre companhias para esta mulher. A delicadeza da memória do parto está no fato de ser eterna e inesquecível.

Da mesma maneira após o parto todas as portas se fecham, não apenas para que o ambiente se aqueça, mas porque é tempo de portas fechadas, é tempo de resguardo.

Todas as memórias impressas no parto e na gravidez, todos os avessos revirados se apresentam em movimento de decantação. Quanto mais acordada, logo descansada, a mulher, e quanto mais harmônico seu entorno, mais fluida essa decantação. Todo o tesouro revelado no parto, agora é guardado à chave em um baú protegido, com um mapa que precisa ser sabido para novos acessos a esse tesouro. A clareza de informações para a leitura deste mapa depende diretamente da qualidade do resguardo. A qualidade do resguardo depende diretamente do descanso e da consciência desta decantação. Devem estar conscientes sobre isso a mulher parida e todos que a cercam.

O cansaço após o parto é um cansaço do fundo da alma, por tantas revelações recebidas, emoções vividas e reviradas, pelo esforço físico, que para algumas mulheres é muito além de seus limites. O descanso deve ter essa mesma profundidade, no corpo físico e no emocional. A decantação é barulhenta, a tranquilidade nesta etapa é mais que necessária, é uma condição para que a mulher consiga ter sanidade diante de tudo que passa por seus olhos abertos ou fechados, revelando a ela a mulher que é, o parceiro que tem, ou não tem, a realidade em que vive, e como são suas relações mais diretas. O que para algumas é a revelação de um estado de graça e boas notícias, para outras é revelação de decepção, de quebra de ilusão e relações consequentemente. O que sempre é bom, mas por ser bom não significa ser fácil, nem agradável.

As informações se acomodam cada uma em sua camada e a experiência se torna viva e presente como uma boa companhia. Os vínculos com o bebê, com o pai do bebê, e com toda a família ganham novo significado, ganhando ainda mais força e profundidade. Final Feliz. Mas para que isso aconteça, existe um comando chave: APOIO.

Apoiar uma mulher em resguardo requer uma série de pequenos detalhes e grandes ações. E isso não está ligado à situação financeira, nível social, opção sexual, ou relação consanguínea. É determinado por ter informação sobre o que isso se trata, e capacidade de respeitar mesmo o que não se entende. Ter informação é a maior chave. O homem e a família, quando bem informados podem exercer uma função transformadora e curativa para a mulher em resguardo. Tudo o que acontece a partir dela nesse momento reverbera em toda família como ondas concêntricas, ela é o centro.

É importante o olhar para o resguardo como um momento chave de harmonização das relações em torno dessa mulher. Quanto mais amigos e familiares envolvidos melhor. É tempo de renovação, um ciclo se inicia. O Bebê traz essa força de renovação com muita potência, ter informação sobre isso é vital.

Assim como o parto, para a mulher o resguardo é uma experiência de vida.

Como essa decantação é invisível aos olhos de quem a vê, nem sempre essa experiência se torna uma boa memória ou uma boa companhia. Uma mulher parida sabe exatamente o significado da expressão “verdade nua e crua”. Nem sempre é fácil lidar com a própria realidade depois de ter vivido algo tão desmascarado quanto o parto.

Importante saber que o resguardo de 40 dias, está relacionado ao descanso fisiológico, por isso o repouso, a ausência de sexo, o esmero com a alimentação, e o evitar as saídas desnecessárias. O resguardo de todos os nove meses vividos, mais o parto, dura de 18 meses à 2 anos dependendo da mulher e de sua realidade. Cada uma com a sua natureza, vai olhar com atenção novamente (resguardo!) para as experiências vividas com o seu ritmo próprio, tomando o tempo necessário para si. Ela vai descobrir em que ritmo funciona de verdade, seu pulso natural. Importante saber que esse período não é possível de ser acelerado, ou retardado. Ainda que algo a obrigue a romper com isso, o resguardo seguirá sendo clamado por estes corpos, e é aí que vem a importância de se ter compreensão sobre o assunto.

Ela está sangrando, limpando seu útero, vertendo leite - e amamentar cansa - dormindo em um novo ritmo, em fase de cicatrização, em loopings hormonais, e aprendendo a lidar com esse ser que ela está conhecendo. Ela precisa de descanso, e de momentos de revitalização. Resguardo não é frescura, nem brincadeira, é coisa seríssima de consequências imensuráveis.

Um resguardo mal respeitado, seja pela própria mulher, ou o que é mais comum, por quem a cerca, resulta em desdobramentos por toda a vida. Desde a sua imunidade física até complicações em relacionamentos com pessoas queridas. O número de separações entre casais nos primeiros 2 anos de vida dos filhos é bem grande, e com informação sobre o assunto muitas decisões desse tipo poderiam ser evitadas.

Já dissemos que neste período a mulher em resguardo é um centro onde cada sentimento é reverberado para toda a família. Neste período ela vai reafirmar alianças, ou romper confianças com pessoas próximas. A postura e o acolhimento serão determinantes pra isso, mais uma vez estamos falando sobre APOIO com informação.

Um resguardo bem feito é a construção de um alicerce sólido, para a construção de um sentimento de gratidão desta mulher parida para seus apoiadores. Uma gratidão que nutrirá a ela mesma e a todos a sua volta por muito tempo, e durante esse tempo ela estará equilibrada, o que significa estar capaz de receber apoio e também apoiar. Uma mulher que se sente verdadeiramente apoiada, é capaz de exalar a mais bela harmonia, a que sustenta a sagrada família.


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